Desigualdade de gênero na urologia: uma análiseConsiderado pai da medicina, Hipócrates (460 a.C - 377 a.C) já era homenageado há pelo menos dois séculos em inúmeros cantos heróicos e bustos de mármore quando a ateniense Agnodice (que viveu por volta do ano IV a.C.) escalava seus primeiros degraus na profissão. Um esforço, registre-se, digno de Atena, deusa grega da guerra, já que, na terra natal desta médica - a primeira mencionada na história da humanidade - as mulheres eram proibidas de exercer esse ofício. Agnodice  teve que se vestir de homem para conseguir assistir às aulas do famoso mestre egípcio Hierófilos e, assim, conquistar o título.

O médico Pedro Romanelli, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia-Regional Minas Gerais.

Considerado pai da medicina, Hipócrates (460 a.C - 377 a.C) já era homenageado há pelo menos dois séculos em inúmeros cantos heróicos e bustos de mármore quando a ateniense Agnodice (que viveu por volta do ano IV a.C.) escalava seus primeiros degraus na profissão. Um esforço, registre-se, digno de Atena, deusa grega da guerra, já que, na terra natal desta médica - a primeira mencionada na história da humanidade - as mulheres eram proibidas de exercer esse ofício. Agnodice teve que se vestir de homem para conseguir assistir às aulas do famoso mestre egípcio Hierófilos e, assim, conquistar o título.

No Brasil, o pontapé inicial foi dado quase dois milênios depois pela gaúcha Rita Lobato Velho Lopes (1866-1954). Formada em 1887 na Faculdade de Medicina da Bahia, ela se especializou em obstetrícia - não sem muitos percalços impostos pelo machismo em seu caminho.

Naturalmente que a luta de Rita, Agnodice e outras tantas bravas mulheres surtiu efeito. Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2018, realizado pela Universidade de São Paulo (USP), os homens ainda são maioria entre os médicos, com 54,4% do total de 414.831 em atividade em 2017, enquanto profissionais femininas representam a fatia de 45,6%. A diferença, contudo, vem caindo sensivelmente. Prova disso é que elas já são maioria entre os médicos mais jovens, na faixa etária dos 29 aos 34 anos.

Outras estatísticas, contudo, parecem nos levar diretamente para o passado, e o pior de tudo é que permeiam justamente a urologia, a minha especialidade. O mesmo estudo da USP revelou que elas representam apenas 2,2% dos especialistas da área. Trocando em miúdos, assim fechamos a conta: dos 4.808 sócios ativos da Sociedade Brasileira de Urologia, 98 são mulheres e 4.710 são homens. Trata-se, portanto, da triste proporção de 44,62 médicos para cada médica. Em Minas Gerais, estado em que atuo, dos 535 representantes da categoria, só quatro são do sexo feminino. Tem mais: nos últimos 50 anos, apenas 3 mineiras se especializaram na área.

O que explica, portanto, a presença tão pequena do sexo feminino na urologia? Um conjunto de fatores certamente permeados pelo preconceito e pela desinformação. Em primeiro lugar, pesa a crença de que somos profissionais relacionados principalmente aos cuidados com pênis e com a próstata quando, na verdade, atuamos de forma muito mais ampla. Além de avaliar o órgão reprodutor masculino, os urologistas podem se especializar em áreas como uropediatria, prolapsos genitais, transplante de rins, tratamento de cálculos renais, incontinência urinária, além do combate a vários tipos de câncer. Cerca de 30% da dos problemas urológicos atendidos em urologia são exclusivamente femininos.

Outro pensamento comum, tido como um dos motivos que levam as médicas a se afastarem da especialidade, tem a ver com o fato de que os homens não se sentiriam à vontade para falar de sua sexualidade com mulheres. A percepção das colegas que já ingressaram na área, contudo, mostra justamente o contrário. Muitos pacientes se sentem mais confortáveis quando atendidos por uma urologista - principalmente quando se trata de procedimentos como o exame de toque retal, pois ainda temem se deixar examinar por alguém do mesmo sexo (um tabu que precisamos continuar trabalhando para quebrar, mas isso é conversa para uma próxima oportunidade).

A boa notícia é que, apesar do longo caminho que ainda temos a percorrer rumo à equidade entre os gêneros na urologia, o cenário atual começa a mudar. Na Europa e nos Estados Unidos, atualmente, estima-se que 25% dos profissionais em treinamento são mulheres. Por aqui, este ano, três médicas já iniciaram a residência na especialidade e, em breve, estarão atuando no estado.

No que diz respeito às cirurgias, outro nicho se abre para elas - sobretudo quando se trata da cirurgia robótica. O robô, afinal, iguala os gêneros no que diz respeito à força e à resistência física. O diferencial entre os cirurgiões reside apenas na dedicação e no treinamento. E, nesses quesitos, os homens que se segurem, pois as mulheres vem com força total.

Também não poderia deixar de comemorar a entrada da Dra. Carmita Abdo para a Sociedade Brasileira de Urologia. Conhecida por seu jeito desinibido e descomplicado de falar sobre práticas e disfunções sexuais, a psiquiatra é nada menos que uma das maiores autoridades em estudos da sexualidade do país. Sua admissão na entidade como membro honorário é, sem dúvida, um grande ganho para categoria, além de significativa rachadura nessa dura casca que nos impede de evoluir enquanto civilização: o machismo.

 

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